terça-feira, 11 de outubro de 2011


“O pior dos problemas da gente
é que ninguém tem nada com isso.”

(Mario Quintana in Caderno H)


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

DENTRO DE UM ABRAÇO

 
  Onde é que você gostaria de estar agora, nesse exato momento?
  Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e não me custaria nada reprisar: num determinado restaurante, de uma ilha grega, em diversas praias do Brasil e do mundo, na casa de bons amigos, em algum vilarejo europeu, numa estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema assistindo à estreia de um filme muito esperado e, principalmente, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel de cinco estrelas consegue superar – a intimidade da gente é irreproduzível.
  Posso também listar os lugares onde não gostaria de estar: num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista.
  E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo?
  Meu palpite: dentro de um abraço.
  Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve.
  Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém-chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incerta, o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso.
  O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer, dentro de um abraço voz nenhuma se faz necessária, está tudo dito.
  Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, nem final de tarde à beira-mar, deitado nem parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama?
  Difícil bater essa última alternativa, mas onde começa o amor, senão dentro do primeiro abraço? Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo, mas hoje me permita não endossar manifestações de alforria. Entrando na semana dos namorados, recomendo fazer reserva num local aconchegante e naturalmente aquecido: dentro de um abraço que te baste.

12 de junho de 2008

(Martha Medeiros, in Feliz Por Nada, pg. 11 e 12, 2011.)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ah, Um Soneto…

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudade nas pernas e nos braços.
Há saudade no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas – está é boa! – era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...

(Álvaro de Campos)

sábado, 1 de outubro de 2011

Sobre o amor


“Quando o amor lhes fizer um sinal, sigam-no,
Por árduos e íngremes que sejam seus caminhos.
E quando suas asas os abraçarem, não reajam,
Mesmo que a espada oculta entre as penas os possa ferir.
E quando o amor lhes falar, creiam nele,
Embora sua voz possa despedaçar-lhes os sonhos, como o vento do norte devasta o jardim.
Pois da mesma forma que o amor os coroa, também vai crucificá-los. Da mesma forma como favorece seu crescimento, também é responsável pela poda.
Da mesma forma que sobe aos galhos mais altos e acaricia os ramos mais tenros que balançam ao sol,
Também desce às raízes e solapa seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele os recolhe em si mesmo.
Debulha-os para deixá-los nus.
Peneira-os para livrá-los das cascas imprestáveis.
Mói-os até a brancura.
Amassa-os até que fiquem maleáveis;
E então os atira ao fogo sagrado, para que possam se tornar pão consagrado ao banquete santíssimo de Deus.
Todas essas coisas deverá fazer o amor com vocês, para que possam conhecer os segredos de seu próprio coração e, à luz desse conhecimento, tornarem-se hóstias do pão da Vida. [...]

 
O amor nada dá senão a si próprio, e nada toma senão de si mesmo.
O amor nada possui, nem se deixa possuir;
Pois o amor se basta a si mesmo.
[...]
E não pensem que podem dirigir os passos do amor, pois ele, se os julgar dignos, é que vai guiar seus passos.
O amor não tem outro desejo senão realizar-se a si mesmo.
Mas se vocês amarem e por isso tiverem desejos, então que seus desejos sejam estes:
Derreter-se e ser como um córrego murmurante que dedica à noite sua melodia.
Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ferir-se pela própria compreensão do amor;
E deixar-se sangrar de bom grado e com alegria.
Acordar à alvorada com um coração sublimado, e entoar aleluias por outro dia de amor;
Descansar ao meio-dia e meditar sobre o êxtase do amor;
Voltar a casa ao crepúsculo com gratidão;
E então adormecer com uma prece pelo bem-amado no íntimo, e um cântico de louvor nos lábios.”

(Kahlil Gibran, in “O Profeta”, pg. 14 e 15.)